sexta-feira, 14 de junho de 2013

Pecado Capital

Cabelo preto cacheado,
Boquinha vermelha
Que charme ela tem!
Se arruma feito uma princesa
Me olhando no espelho
Com cara de desdém
Quando essa nêga se arruma
Meu Deus, que beleza! 
Eu até passo mal
Que o Santo me ajude,
Pois essa mulher é
Meu pecado capital.
Eu me perco em seu corpo
Meu Deus, que sufoco
Essa paixão escondida
Me aventuro feito um louco
Atrás da morena
Que é fruta proibida
Me condenem ao inferno,
Mas esse pecado
Só tem me feito bem
Me prenda em sua rede,
Tu és minha bandida
E eu sou teu refém!

Manu Preta

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Poema para Iemanjá


Eu fui pro mar toda sequinha
Voltei de lá toda molhada
A onda veio e levou tudo
Voltei do mar abençoada.

Janaína levou a oferenda
E mandou muitas bençãos do mar
E eu fiquei na areia cantando:
-Odo Yá, Salve Mãe Iemanjá!

Vem na praia, minha sereia
Vem trazer uma conchinha pra mim
Pra que eu ponha no ouvido e ouça o barulho
Desse mar que não tem fim.

Com tua espada, minha Mãezinha,
Me ajude a guerrear
Pois na terra existe o mesmo perigo
Que tem lá no fundo do mar.

Manu Preta

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Poema de amor em um dia líquido

A chuva faz música no telhado
Enquanto assisto a dança dos pingos
Mirando a luz do poste
Da janela do meu quarto.
O pensamento dançante leva-me
Ao encontro de minha amada
Que possui em si as 7 maravilhas do meu mundo.
A primeira são seus olhos,
Duas jabuticabas maduras
Que me atiçam a colhê-las do pé.
A segunda, seu sorriso
Lábios macios e tentadores
Que iluminam sua face de mulher.
A terceira, sua voz
Melodia sem igual
Que dá vida aos meus dias apáticos.
A quarta, seus cabelos
Tão trançados feito nossas pernas
Em noites eternas de amor.
A quinta, suas curvas
Onde me perco e me encontro,
Onde adoro viajar.
A sexta, o seu cangote,
Minha casa, meu abrigo, meu lar.
E a sétima, seu abraço-escudo
Que me protege do resto do mundo
E promove o encontro de nossas almas.
Dia líquido cheio de lembranças sólidas
Que não deixam o meu peito sossegar.
A chuva não cessa de cair mundo a fora
E mundo a dentro meu coração
Não cessa de amar.

Manu Preta

terça-feira, 4 de junho de 2013

Menina dos Pés de Vento


Dois olhos, duas facas
Que acertam e dilaceram
Qualquer alvo ao seu dispor.
O meu peito, pobre alvo
Do teu olho enluarado,
Um espelho refletor.

More aqui ao meu ladinho
Com tua flor e teu espinho
Quero ver-te florescer
Debruçar-me sobre as pétalas
Que ao sol tão sempre abertas
Teu sorriso faz nascer.

Vem e traga a primavera
Faça a festa que essa espera
Só me faz anoitecer
Traga dia, traga flores
Alegrias e sabores
E tudo que for você

Pois o tempo é presente
Quando alguém que está ausente
Sente pressa em chegar
Vem, menina, de mansinho
Se ajeite no meu ninho
Sem ter pressa de voltar.

Teu espaço ocupa o mundo
E meu peito taciturno
Não te pode aprisionar
Fica livre, sem amarras
Pois eu nunca tive garras
Só pra ver você voar.

Só te peço um denguinho
E o teu gosto bem docinho
Em minha língua pra lembrar
Que fui tua em teu momento
E que nesse eterno tempo
Me pudeste devorar.

Menina dos pés de vento
Teu abraço é meu alento
Mesmo sem dele provar
Em ti vejo poesia
E desejo, noite e dia,
Nele um dia repousar.

Manu Preta

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Mulher Nordestina

Falando de minhas terras
Onde boto muita fé
Vou contar só um pouquinho
Sobre aquele bem-me-quer
Que vadeia pelas ruas
Com o nome de mulher.

Pense num bicho arretado
Que merece até confete
Pois em minha humildade
Ainda que cabra da peste
Não me atrevo a bulir
Com uma mulher do nordeste.

Companheira indispensável
Do homem batalhador
Agüenta o frio, a seca e a fome,
Não desiste ante a dor
Pois além de ser guerreira
É um ser de puro amor.

Vai à luta logo cedo
Pra ganhar o seu sustento
Enfrenta sol e chuva forte
Terra, água, fogo e vento
Nada nunca é tão grande
Que provoque o seu tormento.

Admiro as mulheres
Que moram lá no sertão
Mesmo perdendo seu gado
O jumento e a plantação
Mantém firme a fé na chuva
Dentro do seu coração.

E lá na grande seca
Onde o mar é desejado
Severina de olhar triste
Tem o rosto escanhoado
Suas mãos são bem grosseiras
E seu pé encaliçado.

Quando falo de miséria
Me recordo do sertão
Sem ter água nem comida
Gado, jegue ou plantação
A mulher cozinha palma
E faz disso o seu pão.

Tem aquelas mãos de fada
Que fazem artesanato
Trazendo beleza nobre
Da linha vira um fato
Um papel e uma caneta
Logo vira o seu retrato.

Tem mulher que ta na feira
Pra vender o seu peixinho
Limpa tudo bem ligeiro
E você leva tratadinho
Um peixe delicioso.
Da Feira do Passarinho

E aquelas marisqueiras
Que não param de pescar
Jogam balde, jogam rede
Na lagoa e no mar
Depois tudo vira janta
Pra gente deliciar.

As Marias se reúnem
Bem na beira da lagoa
Esperando seus maridos
Encostarem as canoas
É a vez do sururu,
Delícia das Alagoas.

Tem mulher que é da roça
E está sempre a labutar
Vive arando sua terra
Pra colher o que plantar
Sobrevive só daquilo
Que o chão puder lhe dar.

Com a lata na cabeça
A Maria sobe o morro
Vai levando a sua cria
Que em prantos de socorro
Pede olhando pra sua mãe:
-Me dá água se não morro!

Limpa banheiro dos outros
Lava roupa de encomenda
Vive catando latinha
Ou trabalha em uma venda
Pra que o filho tenha almoço
Quando não tiver merenda.

Tem mulher que constrói casa
Com cimento e tijolão
Fala que trabalho duro
Num é só pra macho não
Mete logo a mão na massa
Com suor e dedicação.

Há também as professoras
Que vivem pra ensinar
Os meninos da escola
A escrever e soletrar
E além de tudo isso
Têm o dom de educar.

E na hora de parir
A mulher morre de dor
Mesmo sofrendo no parto
E gritando com o doutor
A mamãe dedica ao filho
O mais verdadeiro amor.

Passa frio, passa fome
E pro filho não chorar
Ela deixa de comer
Pra ele se alimentar
Prefere perder a vida
Do que ver ele penar.

Admirem as mulheres
Que são natas batuqueiras
Assumem suas raízes
Desde a cor à cabeleira
Lutam por seus ideais,
Têm o sangue de guerreira.

Tem mulher que é do terreiro
Que um dia foi calado
Lembrem Tia Marcelina
E seu templo consagrado
Que nas mãos do homem mau
Teve o sonho destroçado.

Hoje em dia a mulher forte
No axé de sua Oyá
Encabeça e cultua
O templo dos Orixás
Com a justiça de Xangô
E na paz de Oxalá.

Com a fé maior que a vida
Em procissão e romaria
A mulher reza pro santo
Dia e noite, noite e dia
Pra que a vida se transforme
Em um canto de alegria.

Tem também Dona Maria
Esposa de Seu José
Mãe do menino João
E filha de Seu Mané
Que não larga mão do terço
E em Jesus tem muita fé.

Às seis horas da manhã
Ela ajeita seu amado
O “armoço” na marmita
E o café recém-coado
-“Que Deus vá te iluminando
Pra ganhar nosso trocado.”

Quando o menino levanta
O café já ta prontinho
O lanche na merendeira
E o uniforme passadinho
Sua mãe lhe beija a testa
E abençoa seu caminho.

Mulher firme, mulher grande
Que é mãe e que é filha
Trabalha em ruas e becos
Ou então enfrenta fila
Garantindo seu sustento
E de toda sua família.

A mulher dona de casa,
Mulher que tem muita fé
Tem mulher que é diferente
E também gosta de mulher
Não perdendo seu encanto
Aos olhos de quem lhe quer.

Tem macho que é tão covarde
Que se atreve a bater
Em mulher, rosa formosa
Que nasceu pra bem-querer
Esquecendo que os espinhos
É pra ela se proteger.

E você, homem ingrato
Trate de valorizar
A mulher batalhadeira
Que governa o seu lar
Pois se ela for embora
Tudo vai se debandar.

Veja só o Lampião
Caba forte, destemido
Teve o coração laçado,
De amor foi preenchido
Quando viu Maria Bonita
De paixão ficou perdido.

Lhe pergunto, meu amigo
Existe coisa mais bela?
Arme logo aquele palco
E ajeite a passarela
Que a mulher do meu nordeste
Merece até auréola.

Me despeço com jeitinho
Falando em palavras finas
E dizendo que no mundo
Não há coisa mais divina
Que a doçura e a fortaleza
De uma mulher nordestina.

Manu Preta.


terça-feira, 28 de maio de 2013

Flor de Lírio e Sabiá

Vou contar-lhe uma história
Pra ocê apreciá
Sobre uma Flor de Lírio
Que amou um Sabiá
No correr desse cordel
Tudo se explicará.

Foi na Serra da Barriga
Que o encontro aconteceu
Sabiá viu Flor de Lírio
E seu coração bateu
Mas a bela em seu canto
Nem se quer o percebeu.

Sabiá olhou direito
E achou a Flor formosa
Toda aberta, exposta ao sol
Bem bonita e caprichosa
E pensou com seus miolos:
-Ela deve ser dengosa.

Mas a Flor em seu cantinho
Tinha presa sua raiz
Tava sendo bem regada
E quiçá tava feliz
Sua água era de longe,
Mas queria um chafariz

Sabiá namorador
Também era enraizado
Debochava do amor
E cantava adoidado
Não podia ver uma flor
Que mandava seu recado.

Mas a bela Flor de Lírio
Ficou na sua memória
Desejava com a Flor
Construir uma história
Dar um beijo na donzela
Lhe seria uma vitória.

E pensou consigo mesmo:
-Essa Flor tem que ser minha!
Vou cantar-lhe uma canção
Bem singela e bonitinha,
Vou levá-la pro meu ninho
Que é pra ser minha rainha.

Flor de Lírio distraída
Foi vivendo sem notar
Que esse Sabiá danado
Queria lhe cortejar
Tanto em forma de gracejos
Quanto pelo seu olhar.

Era um sorriso daqui
Um olhar de acolá
E a Flor sem entender
Só sorria ao Sabiá
Que pensava: - Qual o rumo
Que essa história tomará?

Quando foi um belo dia
O destino resolveu
Que a hora do encontro
Deveria ser no breu
E foi longe, no escuro
Que o encontro aconteceu.

Flor de Lírio ficou muda
Ao cruzar o seu olhar
Com o olhar do passarinho
Que queria lhe beijar
Mas não era ainda a hora
Nem ali era o lugar.

Bem confusa com o momento
Bela Flor voltou pensando
-Será que esse Sabiá
Já andou me paquerando?
Ele até que é bem formoso,
Vou ficar observando.

As raízes dessa Flor
Já estavam ressecadas,
A terra ficou bem dura
E as pétalas fechadas
O sol tava maltratando
E não era mais regada.

Sabiá mudou de ninho
Mas de coração fechado
Era quase impossível
Ele estar apaixonado
Só vivia seu momento
Sem deixar ser amarrado.

Suas asas ajudaram
A chegar mais perto dela
Pouco a pouco, galho em galho
Paquerando na janela
Onde ela sempre estava,
Cor vermelha e amarela.

Flor de Lírio nem sonhava
Que ele sabia cantar
Sabiá sempre discreto
Nem se quer tentou mostrar
Um pouquinho do talento
Que vivia a preservar.

Nas esquinas dessa vida
Seus caminhos se cruzaram
Em um dia de domingo
Finalmente se tocaram,
Explodiu o sentimento
Do jeito que não sonharam.

Desse dia em diante
Flor de Lírio percebeu
Que não foi simples acaso
Tudo que aconteceu
Corações se engalfinharam
E algo novo ali nasceu.

Sabiá todo medroso
Nem podia acreditar
Que corria grande risco
Dele se apaixonar
Foi voando com cuidado
Pra poder não se amarrar.

Flor de Lírio se livrou
Do vaso que lhe prendia
Pois queria o Sabiá
Dia e noite, noite e dia,
Enfeitar seu belo ninho
Era tudo que queria.

Esse pássaro matreiro
Ainda tava enrolado
Nas palhas do velho ninho
Onde havia antes pousado
Desejava ficar livre
Pra voar mais sossegado.

Depois de estarem juntos
Sem passado no presente
Sabiá olhou em volta
E pensou bem de repente:
- Eu preciso voar só
Que assim não to contente.

Flor de Lírio ficou triste
Mas em todo seu penar
Entendia que as asas
Foram feitas pra voar
E se assim estivesse escrito
Sabiá ia voltar.

Quinze dias se passaram
E a Flor entristecida
Enquanto ele voava
Repensando sua vida,
Mas a sua Flor menina
Não foi nunca esquecida.

Se encontraram novamente
E ali houve verdade
Se abraçaram sem demora
Quase mortos de saudade
Se uniram pra valer
Deixando de ser metade.

E então o Sabiá
Repousou logo no ninho
E abriu seu coração
Pra que a Flor livre de espinho
Pudesse ser companheira
No correr de seu caminho.

Hoje em dia a alegria
Está com os dois a sobejar
Um futuro bonitinho
Eles querem planejar,
Sabiá com Flor de Lírio
Quer um dia se casar.

Pois lhe digo que o amor
É coisa que não se explica
Até coração de pedra
Ele vai e modifica,
E a raiz que estava morta
É o amor que vivifica.

Quem já viu um Sabiá
Se encantar por uma Flor?
Eu lhe digo, meu amigo
Isso é culpa do amor
É doença que não cura
Nem tendo o melhor doutor.

Um sorriso e um cantar
Despertou essa paixão
Que é um tanto inusitada
Mas tocou o coração
Igualdade e diferença
É que fez essa união.

Vou deixar uma lição
Antes de finalizar:
A beleza dessa vida
Se resume em amar
E até em uma rocha
O amor pode brotar.

Só desejo eternidade
E um punhado de amor
Pra esse romance lindo
Onde o tempo foi senhor
Um “felizes para sempre”
Para o Sabiá e a Flor.

Manu Preta.

Ps.: Eis aqui, meus caros leitores, um poema de amor.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Queixa docente

Seu dotô me arresponda
Vá fazendo esse favor
Que miséria da muléstia
É a paga do professor?
Nem me diga essa história
Que o ensino é por amor
Que amor num paga conta,
Eu garanto pro sinhô.

Lá em casa a fartura
Não está de brincadeira
Farta tudo, inté panela
Num tem pão na minha pãozeira
Veja bem que nem um ovo
Eu tenho na geladeira
Quem dirá 50 conto
Pra poder fazer a feira.

Tô latindo no quintal
Pra não gastar a cadela
Até a coitada sofre
Sem ração na sua tigela
Minha luz já ta cortada
E tô jantando à luz de vela
Quando vou comprar fiado
O povo grita: - lá vem ela!

Se adoeço minha cura
Só se dá com lambedor
Falta grana pro xarope
E pro remédio de dor
Minha sorte é a plantinha
Do quintal da minha vizinha
Que me ajuda com amor.

Se eu morrer um dia desse
Chegando do outro lado
Vou pedir satisfação
Pra quem fez esse ditado
Por que amor é coisa boa
Mas valor ele num tem
O dinheiro é necessário
Dólar, euro ou vintém
Pra viver aqui na terra
Antes de ir pro além.

Imagino até a cara
do nosso Pai Criador
Quando ouvir a minha queixa
Sobre a vida do professor
Que ganha menos que um cabra
Que da vida não faz nada
E se diz governador.

Ele vai me olhar de lado
Juntamente com um sorriso
E dirá: não fale nada
Lhe juro, não é preciso
Escolher essa profissão
É pra quem não tem juízo
Sabe que vai ser mal pago
Viver liso e humilhado
E padecer no paraíso.


Manu Preta




sábado, 7 de abril de 2012

Moça

Ei, moça
Moça da janela
Me olhe do alto
De uma forma singela

Te peço em casório
E tiro meu chapéu
Eu te dou de presente
Um vestido branco
E um véu

Eu sei que sou pobre
Mas sou trabalhador
Te darei uma casa de taipa
Um prato de aveia
E um bocado de amor

Seu pai só condena
Essa nossa união
Porquê sou um menino da serra
Sem vintém no bolso
E com os pés no chão

Eu prometo lhe dar
Muito mais que um tostão
A riqueza maior que possuo
Eu entrego de graça,
É o meu coração.

Manu Preta

domingo, 25 de março de 2012

Passa... rinho!

Tu que vês e não me olhas
Sempre que me mostro nua
Minha alma tão entregue
A verdade nua e crua
É só ler bem em meus olhos
Pra saber que eu sou sua.

Me abraças como amiga
E é grande o meu penar
Já tentei por várias vezes
Mas não dá pra disfarçar
Que amigos tenho vários
E a ti eu quero amar.

Vê se volta pros meus braços
Pois é teu esse cantinho
Antes que por ele passe
Um astuto passarinho
Que afaste tua casa
Construindo novo ninho.

Manu Preta

terça-feira, 20 de março de 2012

Fuga

Eu queria escrever.

Mas roubaram as palavras...

                                          Inspiração já foi embora
                                         
                                           Me deixando folhas vagas

                                                                             Me deixou tão iludida
                                                                             Já pensando em um livreto

                                                                                                           Mas fugiu antes da hora,
                                                                                                           Não restou nem um soneto.


Manu Preta


domingo, 18 de março de 2012

Amiúde

Que coração que nada!
Hoje trago em meu peito
Um vazio sem medida
Tal pedaço foi perdido
Nas mãos de de um certo amor
Que pegou, botou no bolso
E sem ele me deixou
Nem sei se hoje ainda bate
Mas aqui esse buraco
Hoje geme, chora e late
Pra ter de volta o pedaço
Onde vê uma completude.

Há um certo segredinho
Um pouquinho amiúde:
Nem é o meu coração
Que me faz sentir vazia
É o coração daquela
Que em meu peito fez folia
E ficou batendo forte,
Me levou de sul ao norte
Com um riso de alegria
E que hoje, longe dela
Esse peito sem tramela
Vive na melancolia.

Manu Preta



quarta-feira, 14 de março de 2012

Rimas e sinas



Lhe pergunto, meu sinhô
Uma coisa complicada
Como é que a vida apronta
De uma forma inesperada
Me levando pra bem longe
Do rosto bem desenhado
Bem bunito e afeiçoado
Que possui a minha amada?
E deixando em meus óio
Uma lágrima ancorada

Hoje meio inspirado
Por se dia de poesia
O meu peito calejado
Inda teve a ousadia
De pensar uns versos soltos
Sem sentido e ligação
Pra mandar junto de flores
Um bombom e um cartão
Pro endereço daquela
Que em meus óio é a mais bela
Sem nenhuma confusão.

Mas a cuca mais esperta
Avisou pra esse danado
Que assim nesse momento
É mió ficar calado
Pra num falar besteira
E causar um mal estar
Porque mesmo que quem ame
Se apresse em falar
Tem ouvidos que na hora
Não precisam escutar.

E o fato mais doído
Que martrata o coração
É que meu mandacaru
Ta caído lá no chão
Tenho cá minhas suspeitas
Que isso aí é coisa feita
E que minha pobre flor,
Em seu canto, lá no chão
Tá sofrendo de um mal
Que se chama solidão.

Eu num sou poeta não
Mas escrevo com vontade
Porquê tudo que é palavra
É mais forte que a verdade
E pra rima terminar
Eu escrevo o tal do amor
E pergunto, meu amigo
Que aqui se faz leitor
Como faço pra tal rima
Que parece minha sina
Não ter que rimar com dor?

Manu Preta


terça-feira, 13 de março de 2012

Reticência...

Cobertas por uma lona de circo,
Duas bocas se encontram para uma breve despedida.
Despiram-se de palavras e suspiros,
Entreolharam-se tímidas
E falaram sem palavras o que o coração quis dizer.
Olhos, pele, cheiro e batimento cardíaco
Fizeram a soma de um momento dolorido
Em que um laço de fita foi solto ao vento.
E dois lábios, assim, em movimento
Se encontraram em um breve tempo
Com olhos fechados, chorando por dentro
Coração na ponta da língua,
Alma em desalinho, confusão de tantas pernas
Pra seguir outro caminho.
E assim, com olhos marejando
E a alma em penitência
As tais línguas se encontraram
Como sempre desejaram
E o tal ponto final
Se tornou uma reticência...

Manu Preta

sábado, 10 de março de 2012

Embolando

No beabá eu vou
Fazendo a minha rima
No coco, na embolada
Onde a palavra me chamar.

Vou caminhando
Sem lenço, sem documento
Sem 1 centavo no bolso
E um sorriso pra gastar.

Embolo a vida
Pra não ficar embolada
Quando piso é trovoada
Eu ando sem tropeçar.

Meu coração é quem
Comanda minha cabeça
Mas cuidado, não esqueça
Do que agora vou falar:

Sou passarinho, tenho
Asas bem gigantes
Só pouso por um instante
Pois o céu é o meu lugar.


Manu Preta.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Mar de Mamãe

Vim do mar de Mamãe Sereia
Mas aqui não posso ficar
Sou a onda que quebra na praia
Que tem hora de ir e voltar

Eu vim de lá das águas
Onde ela mora, Mãe Iemanjá
E vim aqui trazer um recado
E colher flores pra lhe ofertar

Ela pediu que o cortejo lindo
Nunca parasse de batucar
Pois a força que emana das águas
Vai trazer axé e vai abençoar.

Manu Preta


domingo, 4 de março de 2012

Coletivo AfroCaeté








Vou pisando de mansinho
Com respeito e humildade
Peço permissão ao povo
Que habita essa cidade
Pra que eu fale coisa breve
Da nossa ancestralidade.

A gente de pele negra
Que jamais foi esqueida
Fez história e travou lutas
Lá na Serra da Barriga
Mas chegou o povo branco
E a batalha foi vencida.

Se passaram muitos anos
E as coisas acontecendo
Repressão pra todo lado
E o negro ía sofrendo,
Mas tudo que ele plantou
Nessa terra, foi nascendo.

Tu trabalha, negro escrevo
Se tu quiser batucar
Vá pedindo sua força
A Xangô pra tu lutar
Que a justiça logo em breve
Da pedreira vai rolar.

O tambor silenciado
Reprimiu as Alagoas
Que levava oferendas
Em seus barcos e canoas
Pra saudar Mãe Iemanjá
Proferindo suas loas.

Mas o fruto que plantaram
Não ficou só na semente
O couro foi esticado
E o Mestre lá na frente
Fez surgir esse batuque
Nessas terras novamente.

O maracatu nas ruas
De baque solto e virado
Fez tremer pernas e braços
Pra tudo quanto foi lado
Trazendo toda energia
De quem fez nosso passado.

Abençoados pelos negros
E o Caboclo caçador,
Vamos fazendo batuque
Com respeito e muito amor
Pra trazer toda lembrança
Desse povo sofredor.

Somos vermelho e amarelo
Mas o povo é misturado
Tem gente de pele branca
E o cabelo é enrolado
Pois a alma é colorida
E o sangue é variado.

Quando o Mestre lá na frente
Faz soar o seu apito
O som do meu Coletivo
Mais parece que é um grito
E é nessa vibração
Que com fé eu acredito.

Rssa terra vai tremer
E a poeira levantar
Quem chorou já vai sorrir
Quem morgou vai se animar
Pois é um batuque forte
Que já vai se apresentar.

Esse é o grupo Coletivo
Que veio pra batucar
Do mais velho ao mais novo
Não se acanhe em dançar,
Quem souber alguma letra
Nos ajude a cantar.

Com licença eu me retiro,
Peço a benção e muito axé,
Fiquem de olhos abertos
E a orelha bem em pé
Que agora entra em cena
O meu AfroCaeté!

Manu Preta

O Canto da Moça


Eis aqui um canto triste
Sobre uma moça que insiste
No amor se encontrar
Ela sonha noite e dia
E espera a melodia
Pro seu canto se alegrar

O seu peito está ferido
Tão cansado e ressequido
Destruído pela dor
Pela vida segue errante,
É feliz por um instante,
Um poeta sofredor.

Em seus olhos de criança
Moram os passos de uma dança
Que não pôde desfrutar
É preciso um navegante
Com um amor mais que pulsante
Pra fazer ela dançar

Essa moça esquecida
Se esconde na ferida
Que não pára de doer
Ela quer um peito forte
Que lhe dê sentido e norte
E a vontade de viver

Ela quer ser desejada,
Ser bem quista, ser amada
Quer motivos pra sorrir
Se arruma no espelho,
Põe laquê em seu cabelo
E não pensa em desistir

Os amores que passaram
Lhe feriram e maltrataram
Lhe fizeram anoitecer
Sua noite é tão escura
E a menina em sua loucura
Só deseja amanhecer

A menina tão singela
Com seus olhos na janela
Vive sempre a esperar
O amor mais-que-perfeito
Ilusão que o seu peito
Faz questão de alimentar

Deixo aqui um poeminha
E uma prece bem baixinha
Pra que o santo possa olhar?
Que a moça crie asas
Pois lá fora de sua casa
Há uma vida a lhe esperar

Manu Preta